Causos de Arthur Martello

5/09/2026

Resumo

Os causos que Artur Martello: agricultor, homem simples, inteligente, caridoso e, acima de tudo, um extraordinário contador de causos.

Causos de Arthur Martello

Causos de Arthur Martello

 

Meu pai, Arthur Martello, apesar de ter sido agricultor durante praticamente toda a sua vida, estudou pouco. Fez apenas até o quarto ano primário, nas escolas rurais de Barra Bonita.

Mas talvez tenha aprendido muito mais com a vida do que poderia ter aprendido nos bancos de uma escola.

Era um homem muito inteligente, observador e, sobretudo, caridoso. Cresceu cercado pelos avós e pelos tios, muitos deles praticamente da mesma idade que ele. Viveu uma infância e uma juventude dentro de uma comunidade rural, onde as histórias passavam de boca em boca e cada acontecimento ganhava, com o tempo, um pouco mais de emoção.

Uma dessas comunidades ficava no Barreirinho, em Barra Bonita.

Meu pai contava que seu avô, Antônio Júlio Gigliotti, um italiano baixinho, vindo da Calábria, era administrador de uma fazenda. Apesar da baixa estatura, era um homem enérgico, de personalidade forte e muito bravo. Todos tinham certo receio dele.

Aliás, naquela época, havia uma brincadeira que dizia que todo calabrês era bravo por natureza.

Meu pai era um grande contador de causos. Contava histórias com uma riqueza de detalhes que fazia quem estivesse ouvindo imaginar a cena diante dos próprios olhos.

E havia uma característica interessante: ele sempre fazia questão de dizer:

— Mas isso é verdade!

Nunca consegui saber quanto havia de verdade e quanto havia de imaginação nessas histórias. Talvez essa seja justamente a graça dos causos.

 

O lobisomem

Entre tantas histórias que meu pai contava, uma das mais impressionantes era a do lobisomem.

Ele jurava que era verdade.

Certa noite de lua cheia, meu bisavô, Antônio Júlio Gigliotti, estava nos arredores da casa da fazenda quando ouviu um uivo horripilante.

Não era um uivo qualquer.

Era daqueles que fazem a gente parar, prestar atenção e imaginar que alguma coisa muito estranha está acontecendo.

Meu bisavô pegou uma arma — meu pai nunca se lembrava se tinha sido uma carabina ou um revólver — e saiu em direção ao lugar de onde vinha o som.

Depois de algum tempo, encontrou um animal enorme.

Era um lobo grande, peludo, com dentes enormes.

Mas havia alguma coisa diferente naquele animal.

Segundo meu pai, o olhar não era de um lobo comum.

O animal ficou parado, encarando meu bisavô.

Os dois permaneceram frente a frente por alguns instantes.

Meu bisavô, homem bravo que era, não se intimidou.

E atirou.

O enorme lobo saiu correndo em direção ao cafezal e desapareceu no meio das plantações.

Meu bisavô voltou para casa e foi dormir.

Na manhã seguinte, porém, decidiu voltar ao local.

E encontrou manchas de sangue.

Seguiu a trilha.

Andou, andou, até que chegou à casa de um de seus compadres.

Bateu palmas.

A comadre apareceu na porta.

— Bom dia, comadre. Cadê o compadre?

Ela respondeu:

— Está de cama.

Meu bisavô entrou para visitá-lo.

E qual não foi sua surpresa ao encontrar o compadre deitado, com algumas ataduras e ferimentos que pareciam ser provocados por um tiro.

Meu pai contava que os dois homens simplesmente se olharam.

Não fizeram perguntas.

Não deram explicações.

Não disseram absolutamente nada.

Ficou aquele silêncio que dizia tudo.

Um olhando para o outro.

E o assunto nunca mais foi comentado.

Meu pai, entretanto, tinha sua própria conclusão:

Meu bisavô tinha atirado em um lobisomem.

Se era verdade ou não, jamais saberemos.

Mas meu pai nunca teve dúvida.

E, quando terminava de contar a história, ainda reforçava:

— Eu estou contando o que meu avô contava. Ele atirou no lobisomem!

 

O dono da jabuticabeira

Outro causo que meu pai gostava de contar envolvia seu tio, Silvio Gigliotti.

Segundo ele, Silvio queria seguir os passos do pai, Júlio.

Era daqueles homens que gostavam de mostrar coragem. Andava pelas matas, pelos rios e pelas estradas da região sempre com uma arma na cintura.

Certa vez, nas proximidades do Rio Tietê, alguém lhe contou que havia um pé de jabuticaba na beira do rio que era assombrado.

Diziam que a árvore tinha dono.

Para colher suas jabuticabas, era preciso pedir licença.

Silvio, evidentemente, não pareceu muito preocupado com a história.

Num final de tarde, pegou sua arma e foi até o local.

Chegando à jabuticabeira, viu as frutas maduras, bonitas e apetitosas.

Sem pedir licença a ninguém, começou a subir na árvore.

Quando já estava subindo, ouviu uma voz cavernosa, vinda de dentro da própria jabuticabeira:

— AQUI TEM DONO!

Silvio desceu imediatamente.

Mas, em vez de fugir, fez exatamente o contrário.

Pegou a arma, apontou para o tronco e deu dois tiros na árvore.

Depois, olhando para a jabuticabeira, teria dito:

— Agora o dono sou eu!

E voltou a subir.

Meu pai contava que, naquele momento, Silvio sentiu um tapa tão forte na orelha que perdeu os sentidos.

Quando acordou…

Não estava mais na árvore.

Nem estava mais do lado de cá do Rio Tietê.

Estava do outro lado do rio.

E aqui vem a parte mais impressionante do causo:

segundo meu pai, o Rio Tietê tinha aproximadamente cem metros de largura naquele trecho.

Silvio não sabia explicar como havia atravessado o rio.

Não sabia dizer o que tinha acontecido.

Só sabia que havia ido apanhar jabuticabas e acordara do outro lado.

Meu pai terminava a história com aquela expressão de quem acabara de contar uma coisa absolutamente normal.

E talvez, para ele, fosse mesmo.

Verdade ou causo?

 

Hoje, olhando para essas histórias tantos anos depois, fico imaginando o que realmente aconteceu.

Talvez o compadre de meu bisavô tivesse mesmo sido ferido.

Talvez houvesse um animal naquela noite.

Talvez o tio Silvio tivesse levado algum susto na jabuticabeira e, de alguma maneira, atravessado o rio.

Ou talvez as histórias tenham crescido com o tempo, como crescem todas as boas histórias contadas em rodas de conversa.

O fato é que meu pai nunca contou esses episódios como quem inventava uma história.

Ele contava como quem tinha certeza.

E talvez essa seja a maior riqueza dos causos de Arthur Martello.

Não importa se eram cem por cento verdadeiros.

Eles eram verdadeiros na memória dele.

E, por isso, tornaram-se verdadeiros também na minha.

 

Hoje, quando me lembro do meu pai contando essas histórias, percebo que não estava apenas ouvindo causos.

Estava recebendo um pedaço da nossa história familiar.

Uma história feita de italianos calabreses, fazendas, cafezais, rios, jabuticabeiras, coragem, medo, silêncio e mistério.

E, principalmente, de um homem simples, com poucos anos de escola, mas com uma enorme capacidade de guardar na memória e transmitir às próximas gerações as histórias daqueles que vieram antes dele.

 

Meu pai era assim.

Arthur Martello: agricultor, homem simples, inteligente, caridoso e, acima de tudo, um extraordinário contador de causos.

 

Edio Martello 

Cadeira 29 – Patrono: Dorival Ricci

ABROL-PR